Reflets dans l`eau
O que mais nos impressiona neste trabalho de Rita Magalhães é a preponderância da
imagem reflectida na água, imagem que, por ser reflectida, imaginaríamos difusa. Mas,
o que na realidade é difuso é o fundo da água ou, se quisermos, a própria água. Não
adivinhamos um reflexo, mas uma cortina que nos separa da realidade, realidade que
só entrevemos com nitidez quando uma cor quente se sobrepõe à própria cortina.
Folhas secas, vermelhas, que flutuam, não sobre a água, mas dentro dela. Porque é
dentro da água que descobrimos estar, onde a única presença é, por vezes, a de folhas
vermelhas ou da imagem de um edifício que dentro dela flutuam.
Reflets dans l’eau, é o título que Debussy adoptou para a primeira do conjunto de três
Images para piano, estreadas em 1906, e que levou Vladimir Jankélélevitch a referi-lo
como «o músico dos reflexos que Monet havia pintado.» Então, música e pintura
entregavam-se a um mesmo tema que a ambas suscitava movimento e cores em
impressões difusas.
Cem anos depois, Reflets dans l’eau não é mais uma série de cores em imagens sem
contornos reflectidas pela água de um rio, ou de rápidos e caprichosos arpejos segundo
harmonias suspensas e justapostas.
Cem anos depois, Reflets dans l’eau são espectros azuis ou verdes e neles não parece
haver som ou movimento.
Porquê Reflects dans l’eau? Imaginamos mais facilmente o que terá visto Ondine, antes
de emergir para seduzir um mortal, no poema de Aloysius Bertrand que levou Ravel a
escrever Gaspard de la nuit. Imaginamos Transblucency, em que Duke Ellington mistura
o clarinete, o saxofone soprano e a voz de uma soprano lírica como quem mistura cores
numa paleta e delas obtém um homogéneo e transparente azul. Imaginamo-nos até no
adro da Catedral Submersa de Debussy, olhando para o céu para lá da água.
Ou então imaginamos o silêncio. Ou até mesmo solidão.
O extraordinário é admitir que o tema é o mesmo. Cem anos depois imaginamos tudo
isto, embora continuemos a olhar para reflexos na água.
Francisco Albuquerque